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A Potência de Saída dos Amps Profissionais Modernos - Por que os métodos "antigos" de medição não funcionam mais?

Por: Marcelo Barros, com a colaboração de Denio Costa

 

 

1. Por que novos métodos são necessários?

 

Os amplificadores profissionais evoluíram (e continuam evoluindo) para tirar proveito das características naturais da música e também das novas tecnologias de conversão de potência. Isto já vem ocorrendo há muito tempo, bem antes da popularização dos amplificadores chaveados/digitais.

 

Porém o método tradicional (de medição de potência) com sinal senoidal simples (ou contínuo) não é mais adequado para medir a potência real de tais amps, e talvez nunca tenha sido... pois tal método e/ou normas mais tradicionais nunca tiveram por objetivo avaliar amplificadores profissionais! As normas mais comuns que seguem essa linha são as publicadas pela IEC e CEA (antiga IHF, posteriormente EIA).

 

Tais normas e mesmo livros mais tradicionais especificam um sinal senoidal simples para medir a potência de saída de amplificadores e muito embora tais métodos continuarem, em essência, corretos, especificar a potência de um amplificador profissional moderno por tais métodos simples, inevitavelmente irá produzir resultados radicalmente divergentes de suas reais performances de campo.

 

A prova disso é o surgimento de procedimentos mais recentes e sofisticados, baseados em sinais dinâmicos, como a FTC e a EIAJ.

 

Importante deixar bem claro que isso nada tem a ver com coisas do tipo "potência PMPO" (que jamais sequer foi uma norma), etc. Estamos falando de métodos modernos de aferição da Potência Real (RMS) empregando sinais dinâmicos. 

 

2. Quem então está errado? Os fabricantes destes amps modernos ou os métodos tradicionais?

 

Nenhum dos dois! Os métodos mais "conservadores" foram estabelecidos há décadas, a partir dos anos 1950, e nunca visaram o áudio profissional, mas equipamentos de uso doméstico. Também carregam consigo uma alta dose de simplicidade (medir com senoidal cíclico ou ruído rosa seria muito difícil há algumas décadas). Portanto não se trata simplesmente de certo ou errado. Mas de, dentro do contexto atual, inadequado, impróprio!

 

Basta considerar que, a maioria dos amps profissionais da atualidade são equipados com sistemas de proteção que simplesmente não permitem a reprodução de um sinal senoidal contínuo (não musical)! O que por si só já seria suficiente para inviabilizar todo o processo de medição!

 

Um fato inegável é que, quando uma medição resulta em especificação drasticamente divergente do resultado prático é hora de repensar a estratégia de tal medição. Afinal o propósito das especificações técnicas sempre foi o de traduzir em números a performance prática do equipamento. E nunca o contrário!

 

Querem um exemplo de especificação inconsistente com a realidade? Vejam:

 

IEC-268, na seção de potência, instrui a aplicar um sinal senoidal contínuo de 1kHz, na menor carga possível (resistiva) e abrir o volume até que a distorção harmônica atinja 1%, mantendo esse regime por um período de 8 horas ... (!!) - A EIA RS-490, atual CEA-490, por sua vez estipula um tempo de 5 minutos para esse regime, sendo o restante idêntico.

 

Ao final dessas 8 horas (ou 5m) mede-se a tensão RMS na saída do amp e calcula-se a potência média para a carga em questão. Esta seria a potência IEC ou CEA.

 

Se fizermos isso com um amplificador moderno, digamos uma Crown I-Tech, ou talvez uma Powersoft Série K ou uma LabGruppen, provavelmente não encontraremos nem a potência de um amp de fone de ouvido!

 

Ora, nesta situação estes amps já terão entrado em limitação ou proteção térmica há muito, muito tempo!

 

Porém se usarmos qualquer um destes amps para sonorizar um evento de 8 horas, ou mesmo em um teste de som de 5 minutos, observaremos um desempenho bem mais compatível com a performance declarada nas especificações do fabricante do que com a potência de um amp de fone!

 

Alguém se atreve a dizer que isto não é verdade?

 

O Áudio, como tantas outras profissões, é dinâmico, está sempre em constante mudança e não é nenhum pecado estar aberto a elas!

 

3. E por que os amplificadores profissionais evoluíram deste modo?

 

A resposta pode ser resumida em: para aumentar a eficiência do trabalho de sonorização. Torná-lo mais rentável e viável.

 

Na verdade não se trata de evoluir para um conceito de potência dinâmica e enterrar a idéia de potência contínua. Esta continua sendo importante como sempre foi. Trata-se apenas de dar mais atenção ao comportamento dinâmico, ou transiente, dos amplificadores. Em outras palavras: levar isso mais a sério.

 

Tal linha de raciocínio aplicada aos amplificadores permite que estes reproduzam programas musicais com grande fidelidade; e ainda maior do que era antes possível – inclusive estes amps modernos aproveitam melhor o headroom superior oferecido pelos equipamentos digitais (das mesas de som digitais, por ex).

 

Ao mesmo tempo, torna-se mais fácil diminuir o volume e o peso dos amplificadores (que nunca foram lá muito leves...) e também diminuir o consumo de energia elétrica. Isso não apenas torna o trabalho de sonorização financeiramente mais eficiente e competitivo, como também o torna mais seguro.

 

4. Qual a origem das Normas? E como fazem hoje os fabricantes ao redor do mundo?

 

Nenhuma das normas publicadas para amplificadores de áudio são procedimentos compulsórios (obrigatórios) em nenhum lugar do mundo. São tão somente guias, que servem ao interesse público ao comparar produtos disponíveis nas prateleiras das lojas. Portanto, desde o início, o interesse sempre foi o "consumidor comum", de produtos domésticos - onde cada fabricante decide se adotará, ou não, certa normalização.

 

Provavelmente o mais antigo de todas estas normalizações foi a IHF-A-201, publicada nos EUA em 1966, que por sua vez é um upgrade da IHF-A original, publicada nos anos 1950. A IHF-A-201 sofreu revisão em 1978, originando a IHF-A-202, que em 1981 foi suplantada pela EIA RS-490, e esta, por sua vez, foi revisada em 2008 mudando de nome para CEA-490-A-R2008. O método de avaliação da potência média (RMS) nunca foi alterado.

 

IEC-268 e (atualmente) a CEA-490-A na seção de medição da potência média, prescrevem um sinal senoidal contínuo que deve ser sustentado pelo amplificador por um tempo bastante longo (elas têm algumas diferenças no procedimento, mas em essência são iguais e basicamente servem aos mesmos propósitos, produzindo especificações semelhantes).

 

O mais importante a destacar aqui é: todas estas normas sempre visaram os produtos domésticos, para uso de pessoas comuns! A EIA-RS-490 e a sua sucessora CEA-490-A (Consumer Electronics Association), as mais recentes, logo em suas primeiras páginas, alertam: "... this revised standard is in compliance with Federal Trade Commission Rule, Power Output Claims for Amplifiers Utilized in Home Entertainment Products... " [9/10].

 

Por mais incrível que possa parecer, os únicos procedimentos originalmente criados para amplificadores profissionais foram o Lucasfilm THX (voltado para o áudio das salas de cinema THX) e o Método de Ben Duncan. Ambos são descritos no tradicional livro de Ben Duncan [8], a página 259, onde são listados os "Consumer" Hi-Fi Standards (DIN, IHF, e  seus sucessores) e os "Professional Standards" (THX, Ben Duncan). 

 

Mais recentemente surgiu nos USA a FTC (Federal Trade Commission) CFR-432, também uma norma voltada aos produtos domésticos, mas já levando em consideração os amplificadores modernos. Essencialmente ela prescreve um sinal com 1/3 entre a potência contínua e a potência dinâmica (conhecido como "33/66") e fator de crista de 7dB aprox.

 

Na mesma linha, surgiu a EIAJ, com a diferença de prescrever um sinal com fator de crista um pouco mais alto que a FTC (9dB - o mesmo do ruído rosa), com 1/4 entre a potência contínua e a potência dinâmica, também conhecido como "8/24".

 

O resultado é que todos os fabricantes (fora do Brasil, claro) acabaram por convergir, em maior ou menor grau, para uma dessas duas últimas (FTC ou EIAJ). Artigos científicos foram escritos para dar suporte a essa ideia, sugerindo mudanças nas normas mais tradicionais como a IEC ou CEA. Para confirmar isso basta consultar a bibliografia do assunto na AES, como por exemplo o artigo [6] ou [11].

 

A essência da FTC e da EIAJ reside em se empregar um sinal senoidal tone-burst, isto é: um sinal senoidal interrompido e cíclico (e bem mais parecido com a música) ao invés de um sinal senoidal contínuo. Em resumo: troca-se o sinal senoidal simples por um sinal senoidal cíclico (1kHz 33/66ms na FTC e 1kHz 8/24ms na EIAJ), nada mais.

 

O fato é que, alguns fabricantes "criaram" a sua própria versão destes sinais senoidais cíclicos e acabou não havendo uma padronização acerca da composição (inúmeras combinações são possíveis...) com cada um advogando as qualidades da sua escolha e claro, com cada escolha privilegiando os pontos fortes de sua marca/conceito.

 

Pode-se compor um sinal cíclico (ou tone-burst) mais adequado a amplificadores destinados a programas mais pesados (sub´s) e outra composição mais adequada a amps de uso mais geral, por ex. Assim, não é raro encontrar 2 ou 3 padrões de sinal no catálogo de um mesmo fabricante!

 

Alternativamente ao senoidal cíclico (tone-burst) outros ainda preferem a utilização de ruído rosa (pink noise), com resultados bem semelhantes ao sinal EIAJ 1kHz 8/24ms (o ruído rosa é utilizado, por ex. para a aferição da potência máxima admissível em alto-falantes - normas AES e NBR 10.303).

 

4a. Se atualmente nenhuma marca de amps profissionais ao redor do mundo especifica potência segundo a IEC e CEA, por que no Brasil elas são consideradas "importantes"?

 

A resposta talvez esteja ligada ao modo de como a atividade de sonorização profissional começou no Brasil. Aqui, ela trilhou um caminho bem diferente do ocorrido lá fora.

 

A atividade de "P.A." começou a crescer nos EUA e no Reino Unido basicamente para atender a demanda das novas bandas se apresentarem ao ar livre (como os Beatles, por ex.), e isso foi basicamente o que ocorreu por aqui.

 

Porém, lá fora, o equipamento evoluiu a partir dos equipamentos utilizados em clubes, emissoras de rádio e em estúdios de gravação. Uma origem que nada tem a ver com os equipamentos domésticos! Além disso, os fabricantes estavam lá. Ao perceberem o novo mercado, estes fabricantes rapidamente lançaram novos modelos, mais adequados a nova atividade. Não houve tempo, nem mesmo necessidade de se fazer adaptações... 

 

Aqui no Brasil essa atividade decolou em uma época de isolamento, quando não era possível importar nada, e não havia praticamente nenhum fabricante local (de amps profissionais) - não havia outra saída: era preciso adaptar!

 

O que havia de melhor (e mais potentes) por aqui eram os equipamentos domésticos de alta qualidade (Gradiente A-1, H-II, Polyvox PM-5000 e outros). O uso destes equipamentos domésticos no ambiente profissional selou essa "mistura" de padrões - que permanece até os dias de hoje! (veja também o FAQ Ganho versus Sensibilidade).

 

Portanto é justo dizer que, muitos dos amplificadores profissionais fabricados hoje no Brasil, descendem - ao menos conceitualmente - destes amplificadores domésticos pioneiros. Isto poderia explicar a insistente ideia, presente ainda hoje, de se misturar padrões domésticos e profissionais.

 

Lembrando que tal não se restringe a medição de potência. Existem vários outros "resquícios" dos padrões domésticos "bem vivos" hoje no nosso meio profissional; como por ex. a questão da Sensibilidade versus Ganho em amplificadores, como já citado. 

 

5. Esta troca - de sinal senoidal contínuo por sinal senoidal cíclico ou por ruído rosa têm fundamentação científica?

 

SIM, pois a música tem um Fator de Crista (relação entre a potência de pico e a potência médiacrest factor em inglês) de 9dB ou mais, conforme [3], [4] e [7]. Outras fontes citam entre 7 e 20dB [5]. 

 

Em outras palavras: a música em geral, desenvolve potências instantâneas (PEAK) cerca de 8 vezes (9dB) maiores que as potências médias (RMS) !!

 

Mas isso se o programa musical for bem "pesado". De um modo mais geral, as potências instantâneas (PEAK) são entre 5 à 100 vezes maiores que as potências médias (RMS).

 

Surpreendente, não é mesmo? Mas é assim que as coisas são...

 

Em outras palavras: a música, que é um mix de instrumentos e voz, é composta de curtos períodos de alto nível sonoro entremeados por períodos bem mais longos de níveis mais baixos [1] e [2].

 

Já o sinal permanente senoidal, que tem um Fator de Crista = 3dB, pode ser pensado como uma música (!!) em que a dinâmica foi 100% removida!

 

Se consultarmos o artigo [4] na tabela 2, poderemos verificar que um amplificador de 100W RMS, cujo critério de projeto foi (tradicionalmente) baseado no sinal permanente senoidal, trará pouco proveito para o seu usuário; uma vez que desses 100W disponíveis, ao se reproduzir música, só se conseguirá extrair dele cerca de 25W!

 

Essa discrepância é devida à natureza complexa e inconstante do programa musical.

 

Assim, para compensar esse efeito, precisaríamos superdimensionar a potência do amplificador, em até 4 vezes (6dB) a potência do alto-falante, conforme [3].

 

Essa prática foi amplamente divulgada e embora correta, todos concordam que ela é bastante dispendiosa. E é também perigosa ! Pois se o amplificador distorcer ou apresentar algum defeito, com tanta potência de sobra, certamente os falantes serão danificados.

 

Não existe nenhuma outra saída?

 

Existe sim. Como bem observou nosso querido e saudoso Sólon do Valle em [2]; vejamos:

 

Se um amplificador foi originalmente projetado e dimensionado para programas musicais (ao invés de dimensionado para senoidal contínuo) na utilização prática este amp será bem mais viável, pois que não será necessário superdimensionar a sua potência contínua, a fim de garantir a reprodução dos transientes.

 

Ou usando as palavras do próprio Sólon: "ao invés de superdimensionar a potência (contínua) em 6dB (ou 4 vezes), basta utilizar amplificadores com essa proporção entre a potência dinâmica e a contínua".

 

Essa abordagem é a essência da FTC e da EIAJ.

 

6. Que vantagem leva o usuário com essa nova abordagem (projetar amps visando obter uma alta potência dinâmica)?

 

Vantagem n. 1: (já citada) amplificadores assim permitirão um melhor aproveitamento de sua potência, pois deixará de ser necessário superdimensioná-la [2];

 

Os próprios alto-falantes se adaptam bem a esse conceito [1]. Pois a norma brasileira NBR 10.303 e americana AES prescrevem a utilização de ruído rosa na medição de potência de alto-falantes [4](ruído rosa tem Fator de Crista = 9dB, sendo um sinal extremamente dinâmico). Tais amps preservam muito mais a integridade dos falantes do que amplificadores originalmente concebidos para sinal senoidal contínuo, já que a potência dos alto-falantes nunca é medida com sinal senoidal contínuo, em nenhuma das normas em vigor, mas com sinal do tipo dinâmico (ruído rosa) e tais testes são sempre destrutivos.

 

Isso nos prepara para a segunda vantagem, a saber:

 

Vantagem n. 2: se um determinado falante foi aprovado em um teste destrutivo (NBR 10.303 ou AES) ele dificilmente será danificado por um amp otimizado para ter alta potência dinâmica (com o dimensionamento correto, claro);

 

Cabe aqui a seguinte observação:

 

 Alto-falantes - tradicionalmente especificados pela potência dinâmica RMS (sinal de teste ruído rosa);

 

 Amps - agora também especificados pela potência dinâmica RMS (sinal de teste tone-burst).

 

Com isso em mente:

 

Vantagem n. 3: projetar e especificar amps pela sua potência dinâmica diminui a distância entre amps e falantes, fazendo com que o dimensionamento seja bem mais fácil e seguro.

 

7. E quais serão as desvantagens de um amplificador otimizado para ter alta potência dinâmica?

 

Um amp deste tipo é bem mais difícil de ser medido com precisão... mas isso é uma tarefa para os fabricantes.

 

Para os usuários a única recomendação é: estejam atentos a atividade-alvo de cada linha de amplificadores - hoje tornou-se comum existirem diversas linhas de produtos, cada uma com um objetivo bem específico.

 

8. E se medirmos a potência de um amplificador convencional com algum destes novos métodos (FTC/EIAJ)? A potência deste será “inflada”?

 

Para os métodos aqui citados, normalmente não. Um amplificador de projeto convencional e originalmente bem dimensionado para o regime permanente senoidal, fornecerá números muito próximos se medidos pelos métodos tradicionais ou pelos métodos que utilizem o tone-burst. É claro que isso dependerá de outros fatores e não apenas do sinal de teste escolhido, mas a tendência é a de obter números semelhantes.

 

Vejam os exemplos a seguir. São amps de projeto tradicional (a marca foi omitida) e quando medidos com o sinal da FTC 1khz @ 33ms-ON/66ms-OFF (como sugerido pela LabGruppen [5]), fornecerão resultados muito parecidos com os originais.

 

 

Logo, o objetivo dos novos métodos não é “inflar” especificações, mas tão somente adequar procedimentos tradicionais às novas soluções. Para concluir esse tópico, vou citar novamente o meu amigo Sólon do Valle. A esse respeito, ele me disse certa vez: “para medir a potência destes novos amps, eu tenho que enganá-los..." [se referindo a enganar os amplificadores].

 

9. A potência dinâmica obtida pelos métodos de Tone-Burst (FTC/EIAJ) é “RMS” ?

 

SIM. Isso estará garantido desde que se empregue o mesmo procedimento matemático utilizado para a obtenção da potência RMS em regime contínuo, como prescrito em tais procedimentos. Pois qualquer tipo de sinal pode ter o seu valor eficaz (RMS) medido ou calculado, sem exceções!

 

Em verdade, a única diferença deverá ser o sinal de teste. Onde o senoidal contínuo será substituído por um sinal senoidal cíclico, ou tone-burst, ou ainda ruído rosa, que simulam muito melhor os programas musicais.

 

Portanto, utilizar o termo “potência RMS” ou "potência RMS dinâmica" para os resultados obtidos em medições utilizando-se tone burst (ou ruído rosa) é absolutamente correto!

 

10. As potências dinâmicas obtidas pelos métodos de Tone-Burst podem ser chamadas de “potência de pico” ou "potência PMPO"?

 

DE JEITO NENHUM!

 

A potência instantânea, ou de pico (PPEAK), requere um procedimento completamente diferente. A “potência RMS” é uma média, obtida a partir da tensão VRMS em trechos longos. Já a potência de pico PPEAK é um valor instantâneo e deve ser calculada a partir de VPEAK em trechos muito curtos (pontos, na verdade).

 

Portanto, tratam-se de duas (importantes) grandezas distintas, com definições bastante diferentes e que não devem ser confundidas em nenhuma hipótese.

 

Tanto são diferentes que a relação entre essas duas grandezas nos define o Fator de Crista:

 

FC(dB) = 10 log (PPEAK / PRMS)

 

Já a tal "potência PMPO" jamais foi uma normal! Nem sequer chegou a ser um procedimento documentado. Trata-se de uma criação puramente comercial, desprovida de qualquer fundamento técnico e sem nenhum valor, estando banida de nosso país desde 2006.

 

11. Um amplificador originalmente projetado e otimizado para ter alta potência dinâmica altera o timbre natural dos programas?

 

Geralmente NÃO. É claro que isso depende de muitos outros fatores que vão além da potência. Mas de um modo geral, para um bom amplificador, pode-se afirmar que não.

 

Para ilustrar, selecionamos dois trechos de programa musical, a fim de mostrar que nada se perde ou muda ao passar a música por um bom amplificador otimizado para potência dinâmica.

 

O primeiro trecho pertence à uma música pop “pesada”, com fator de crista próximo de 9dB (trecho de Sleadhammer de Peter Gabriel). Retiramos um pouco dos agudos através de um LPF, para tornar a imagem mais clara.

 

A amostra em vermelho é o sinal original. A amostra em azul é o sinal de saída à máxima potência, normalizada para comparação (ela foi atenuada para ter a mesma amplitude do sinal de entrada). Essa imagem é similar ao que se veria na tela de um osciloscópio digital, ou na tela principal de um programa de edição de áudio (tal como o Sound Forge).

 

 

Como se pode ver, a amostra de saída (azul) é idêntica à amostra de entrada (vermelha), como proposto.

 

Mas o pior caso é o das músicas eletrônicas (dance/rave) altamente comprimidas, como menciona a FTC. A amostra a seguir é um trecho de uma faixa de música eletrônica extremamente pesada, com um fator de crista de aprox. 7dB. Como antes, essa amostra foi aplicada de modo a produzir a máxima potência do amplificador

 

 

Como pode-se ver, ambas as amostras são virtualmente idênticas.

 

12. E qual é a composição de sinal senoidal cíclico (tone-burst) mais adequada?

 

Isso não é (infelizmente) uma unanimidade. Examinando-se os datasheet de vários amps, de diversas marcas, podemos organizar a seguinte tabela:

 

 

Consultando [3, 4 e 7] pode-se elaborar a seguinte tabela (os complementos são do autor):.

 

 

Esse é um guia que vem sendo seguido pela maioria dos fabricantes atuais. Analisando essa tabela, podemos ponderar da seguinte forma:

 

Para trabalhos full-range em geral, com música não excessivamente eletrônica, tal como: rock pesado, pop pesado, axé, etc. É suficiente que o amp seja testado com um sinal de fator de crista = 9dB (sem compressão à potência máxima), como por exemplo o sinal 1kHz @ 8ms-ON/24ms-OFF chamado de EIAJ e adotado pela Powersoft, ou então o ruído rosa "natural" (sem compressão);

 

Para programas mais pesados, como: música eletrônica com muitos graves, ou mesmo em uma via de subwoofer bem pesada, seria interessante que o amp suportasse um sinal de teste com fator de crista um pouco menor, algo como 7 ou 8dB (novamente sem compressão à potência máxima), tal como o 1kHz @ 33ms-ON/66ms-OFF proposto pela FTC e adotado pela LabGruppen ou o 1kHz @ 500ms-ON/1000ms-OFF proposto pela Next Pro como uma variação de longa sustentação do sinal FTC

 

13. Então observar um Fator de Crista mínimo é suficiente?

 

Essa dúvida é bem mais antiga do que parece. E aparentemente a resposta é NÃO! Vejam o artigo [6] datado de 1987 (download disponível neste site) e o artigo [11] de John Meyer (Meyer Sound).

 

Neles os autores chamam a atenção para outro elemento que vai além do fator de crista. Trata- se do tempo de duração do burst ou da sustentação do sinal. Destacam que o sinal de teste deveria ter um tempo ativo de pelo menos 300 ou 500ms a fim de satisfazer os estilos musicais mais exigentes com respeito ao fornecimento de energia.

 

A própria (e tradicional) IEC sugeriu um procedimento (talvez até influenciada por estes autores) com sinal do tipo dinâmico [7] onde o tone-burst de 1kHz tem a seguinte composição: 1s-ON / 60s-OFF. O valor da tensão RMS a ser utilizado no cálculo da potência deve ser obtido ao final deste burst.

 

E agora com mais essa ... o que devemos fazer??

 

As provas que temos nos mostram que, observar o critério do fator de crista juntamente com o critério de uma sustentação mínima é o caminho a ser seguido!

 

Resumindo, podemos classificar os amps em dois grandes grupos: 

 

Amps de P.A. ou de aplicação geral: para satisfazer a todos os estilos e aplicações profissionais o amp deveria suportar sinais com Fator de Crista 7-8dB (como o 33ms-ON/66ms-OFF proposto pela FTC) e além disso ter uma sustentação de sinal mínima de 300 ou 500ms antes de qualquer intervenção de seus limitadores/compressores (como o 500ms-ON/1000ms-OFF - variação da FTC proposta pela Next Pro).

 

Amps para música em geral, monitoração/sonorização ambiente e vias médias/altas de sistemas de P.A: estes estariam plenamente satisfeitos com um sinal do tipo ruído-rosa, como o 8ms-ON/24ms-OFF proposto pela EIAJ e adotada pela Powersoft.

 

Por esse motivo a Next Pro optou pelo sinal senoidal 1kHz @ 500ms-ON/1000ms-OFF (variação da FTC) para dimensionar e especificar seus amplificadores de uso geral (P.A.), onde ambas as exigências estão satisfeitas, e um sinal 8ms-ON/24ms-OFF (EIAJ) para os demais modelos (sonorização geral e ambiente).

 

Colaborou neste artigo, Denio Costa (DGC Áudio)

 

Referências

 

[1] Sólon do Valle, “Digilite 6.4, Análise Técnica”, Revista Áudio, Música & Tecnologia, no 189, junho de 2007;

 

[2] Sólon do Valle, “Amplificadores de Áudio - Parâmetros Principais”, Revista Áudio, Música & Tecnologia, no 138, março de 2003; disponível em: www.musitec.com.br/blogs/classicos/?c=76

 

[3] Homero Sette Silva, “Especificando o Amplificador”, 2007; disponível em: http://www.studior.com.br/ampxfal.pdf

 

[4] Carlos Correia da Silva e Homero Sette Silva, “Alto-falantes e Caixas Acústicas, Características e Utilização”; disponível em: http://www.studior.com.br/semea.pdf

 

[5] Lab.Gruppen, “Testing Procedure”;

 

[6] Peter W. Mitchell, “A Musically Appropriate Dynamic Headroom Test For Power Amplifiers”, 83rd AES Convention, 1987; disponível em: http://amplificadoresnextpro.com.br/musically%20app_dyn.pdf

 

[7] Rosalfonso Bortoni, “Amplificadores de Áudio”, H. Sheldon Serviços de Marketing Ltda., 2002;

 

[8] Ben Duncan, “High Performance Audio Power Amplifiers”, Butterworth-Heinemann, 1998;

 

[9] Electronic Industries Association, “EIA Standard RS-490, Standard Test Methods of Measurement for Audio Amplifiers”, Electronic Industries Association, 1981;

 

[10] Consumer Electronics Association, “CEA Standard 490-A R2008, Test Methods of Measurement for Audio Amplifiers”, Consumer Electronics Association, 2001, revisado em 2008;

 

[11] John Meyer, “Making Sense of Amplifier Power Ratings”, Meyer Sound Laboratories Inc, Technical Note, 2005.

 

 

 
 
 
 
 
 

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